Voltar para a lista

ONG ensina a correr e transforma histórias

Em 14 anos, Portela nunca pensou em parar. “Já aconteceu de ter preguiça. Só que quando acordo e vejo o sol, sempre me arrependo”.

Compartilhar:

*Matéria publicada em 20 de março de 2018 

À primeira vista, a história de Maria de Fátima Portela, 57 anos, parece igual à de tantas outras mulheres. Nordestina, Portela, como é conhecida, veio do Maranhão para São Paulo em 1981. Separada e com dois filhos pequenos, foi morar na casa de um irmão até se estabelecer direito e começou a trabalhar com limpeza. Portela conta que foi com essa atividade que criou os filhos mais velhos e os outros dois que vieram do segundo casamento.

Em 2002, depois de passar anos numa rotina que a obrigava a sair de casa às cinco da manhã e voltar às dez da noite, Portela se viu cansada, deprimida e doente. Foi nessa fase, já com problemas na tireoide e tomando um remédio “tarja preta” receitado pelo psiquiatra, que aconteceu a grande virada em sua vida.

“Uma amiga, que foi uma luz para mim, me convidou para caminhar num parque perto de casa. Aos poucos, conheci outras mulheres que me chamaram pra conhecer o Vida Corrida. Quando cheguei na aula, tudo me chamou muito a atenção e eu comecei a participar”, lembra Portela contando que, em algum tempo, pôde abrir mão dos medicamentos para depressão.

Lá se vão 14 anos e aquela mulher que nunca tinha feito nenhuma atividade física na vida, hoje fala em “planilhas de treino” e conquistas com a naturalidade de quem, de fato, incorporou a atividade física na rotina. Aliás, quando conversou conosno, Portela estava em Pernambuco de férias, mas, mesmo assim, fiel à corrida. “E quando chove?”, pergunto. “Quando chove, eu vou na chuva mesmo”, conta a atleta que já correu algumas provas da São Silvestre, uma Volta da Pampulha (em Belo Horizonte) e tinha acabado de se inscrever para uma corrida em Caruaru que aconteceria dias depois do nosso papo.

Portela conta que a corrida trouxe muitos benefícios a sua vida. “Eu tenho disposição para tudo. Até a energia no trabalho melhorou. Outra coisa é que eu era muito tímida e fechada. Não conseguia nem dizer “eu te amo” pros outros. Hoje, saio falando”, diverte-se. “Hoje eu sou uma pessoa 100% melhor. Quando me aposentar vai ser ainda melhor”.

Nesses 14 anos, Portela nunca pensou em parar. “É claro que já aconteceu de ter preguiça de sair pra correr. Aí, eu viro pro lado e durmo. Só que quando acordo de vez e vejo o sol, sempre me arrependo de ter faltado”, comenta.

A corredora sabe que inspira outras pessoas dentro e fora de casa. Os netos menores (ela tem cinco netos e um bisneto) dizem que querem “correr como a vovó” quando crescerem. Além disso, no Vida Corrida mesmo, vez em quando aparece algum frequentador mais jovem dizendo que se espelha nela. “Eles se perguntam: ‘se essa senhora faz, porque eu não faria?’”. Além de correr, Portela acabou se envolvendo também na gestão do Vida Corrida. “Já faço parte da Diretoria. Só saio se a Neide me expulsar”, brinca.

Como tudo começou

Neide é Marineide dos Santos Silva, 56 anos, fundadora da Associação de Moradores da Cohab Adventista, no Capão Redondo, zona sul de São Paulo, e criadora do Projeto Vida Corrida.

Neide, que começou a praticar esportes aos 14 anos, não teve oportunidade de realizar o sonho de competir em uma Olimpíada, mas se tornou corredora amadora.
Foi em 1999 que, pela primeira vez, Neide ensinou a correr. Aquele grupo, então formado por seis mulheres, cresceu muito e hoje já contempla 600 pessoas a partir de seis anos. “Mas não tem limite pra idade. Já tivemos uma corredora com 80 anos”, observa.

A corredora comenta que o Sesc é parceiro da ONG desde o início. “A primeira vez que corremos em grupo foi no Circuito Sesc na unidade de Interlagos. Desde então, a gente participa de tudo: Sesc Verão, Move Brasil e o Dia do Desafio”. Neide comenta ainda que aprendeu a organizar corridas com a ajuda do Sesc.

Sobre o Dia do Desafio, Neide conta que em 2016 a ONG conseguiu atrair mais de três mil pessoas. “Tivemos uma caminhada e atividades nas quadras. O Sesc ainda trouxe atividades de Yoga e Polo pra gente conhecer”, lembra.

Neide entende que a maior dificuldade das pessoas é começar e continuar numa atividade física. Para ela, o que funciona é formar grupos. “Eu moro em comunidade e vejo as pessoas precisam se reunir, chamar o vizinho, o namorado, a irmã… Quando o grupo vai crescendo e as pessoas começam a perceber os benefícios, elas se estimulam e continuam. Na verdade, não tem muito segredo. É começar. As pessoas precisam entender que a vida não é o controle remoto”, conclui.